A neurociência por trás da comunicação
por Marina von Zuben

Começamos agora uma nova série em que vamos falar sobre linguagem. Neste momento histórico de pandemia, com muita gente vivendo em isolamento social, as alternativas disponíveis para o intercâmbio pessoal vêm desafiando nossa capacidade comunicativa. Quem não viu uma mensagem enviada por escrito ser mal interpretada porque as palavras não foram suficientes para expressar ironia, ritmo ou afeto? Comunicar é sobre transmitir e reconhecer os símbolos e signos socialmente constituídos que colorem e conferem sentimento ao conteúdo transmitido, ultrapassando as palavras. Portanto, falar sobre linguagem é discutir a própria necessidade interativa e o caráter social da nossa condição humana.

A linguagem na vida em sociedade

Em uma perspectiva evolutiva, algumas teorias sugerem que o desenvolvimento da linguagem se deu em detrimento de outras habilidades. Em outras palavras, algumas aptidões de nossos ancestrais foram reduzidas ou extintas ao longo da história para dar lugar à nossa capacidade de comunicação. Segundo essas teorias, quando nossos antepassados desceram das copas das árvores e passaram a viver no chão, eles tiveram de atuar em grupo para sobreviver às novas ameaças, o que acarretou a necessidade de comunicação entre eles. Dessa forma, teríamos perdido a capacidade de detectar e identificar com precisão e velocidade alvos dispersos dentro de um campo visual para adquirir a capacidade de transmitir e receber informações.

De lá pra cá, essa capacidade sofreu refinamentos que acompanharam a evolução da complexidade das estruturas e relações sociais e a ampliação das atividades humanas. Normas sociais implícitas ou explícitas determinam as regras comunicativas, estabelecendo maneiras de se comunicar não apenas verbalmente pela fala ou pela escrita, mas também fisicamente, por meio dos gestos, expressões faciais, comportamentos e do próprio vestuário. O aperfeiçoamento nesse processo de linguagem impôs também maior complexidade aos sistemas cerebrais responsáveis pelo desempenho da função comunicativa.

O amadurecimento cerebral

Uma criança, embora dotada de todo o aparato necessário para o desenvolvimento de sua capacidade comunicativa, somente poderá desenvolver essa habilidade se estiver exposta à própria língua. Para além disso, a capacidade de nos comunicarmos em um sentido amplo, não apenas por meio da fala, pressupõe a interlocução. A interação com outros indivíduos da mesma espécie permite que eu interprete expressões faciais, gestos e outros signos e símbolos adequadamente para então reproduzi-los com intenção comunicativa. Mas quando começamos a desenvolver a habilidade comunicativa?

A linguagem pode ser entendida como o uso de sistemas complexos de comunicação. Desenvolvemos a capacidade de nos expressarmos verbalmente entre o segundo e o terceiro ano de vida, a partir de mudanças derivadas do amadurecimento cerebral. Desde o nascimento somos dotados de quase todos os neurônios que carregaremos ao longo da vida, mas a partir dos 15 meses ocorre um aumento significativo da densidade dendrítica, ou seja, nessa faixa etária acontece um aumento da quantidade de dendritos nos neurônios - justamente a parte responsável pela comunicação entre as células nervosas. Isso significa que quase tudo o que entendemos por amadurecimento cerebral nessa fase da vida se refere à proliferação da conexão entre neurônios. As mudanças mais importantes que ocorrem a partir do segundo ano de vida estão relacionadas às áreas responsáveis pela linguagem.

Praticamente todas as regiões cerebrais estão, de alguma forma, implicadas no funcionamento da nossa capacidade comunicativa. Isso porque ela envolve aspectos emocionais (da escolha das nossas roupas à maneira como gesticulamos, muitos traços de nossa personalidade comunicam nossos estados afetivos), requer a ativação de memórias de várias modalidades sensoriais (visuais, auditivas e olfativas) e depende da integridade de inúmeras outras funções cerebrais, algumas mais primitivas e outras mais evoluídas. Essas associações revelam o nível de complexidade da nossa capacidade comunicativa e a exigência em termos de desenvolvimento e amadurecimento cerebral e cognitivo para que possamos desempenhar adequadamente essa função.

O processo de amadurecimento das estruturas responsáveis pela linguagem só está completo por volta dos 12 anos de idade - com exceção do repertório linguístico, claro, já que nosso “dicionário interno” permanece em construção ao longo da vida. Habilidades fundamentais para a aquisição da linguagem são inerentes à estrutura biológica do cérebro humano, o que explica o fato de existir regularidade no período de aquisição da capacidade de compreender e se expressar verbalmente em quase todos os idiomas. Em suma: o cérebro humano está preparado para aprender e usar a linguagem, uma vez que ele é dotado do aparato biológico necessário ao exercício dessa função. Mas o desenvolvimento da linguagem também pressupõe um componente social. Afinal, de que serve desenvolver a habilidade de se comunicar se não houver um interlocutor?

Marina von Zuben é neurocientista docente e pesquisadora do Hospital das Clínicas da USP, e Chief of Neuroscience and Learning da Bossa.etc

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