Como formamos nossa autoimagem
por Marina von Zuben

Apego na primeira infância

O psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby desenvolveu a Teoria do Apego, em que discute as diferentes formas de estabelecimento de vínculos e condições de cuidado entre a mãe e seu bebê. Segundo o autor, o apego teria influência genética, sendo, portanto, uma necessidade inata da criança. Assim, por meio de comportamentos e ações manifestados precocemente, o bebê estabelece o vínculo com seus cuidadores. Para Bowlby, atitudes de cuidado e outras formas de responder às demandas e necessidades da criança contribuem para que ela constitua um senso de importância e do que desperta no outro. E, conforme ela cresce, apoia-se no desenvolvimento da linguagem e, portanto, da formação de conceitos para adquirir a capacidade de compreender a organização do mundo à sua volta. Nessa fase, a criança torna-se capaz de criar representações mentais do mundo que a cerca e da forma como ela espera que as pessoas se comportem. Segundo Bowlby, constituímos na infância modelos de relacionamento e de como nos vemos nas diferentes relações que construímos, com base naquelas conexões que estabelecemos desde muito pequenos. Quando essas representações e relações são constituídas de maneira saudável, os modelos vão sendo atualizados à medida que novos vínculos se formam e que exercemos diferentes papeis sociais e familiares. Dessa forma, todas essas relações, especialmente aquelas mais relevantes em nossa tenra infância, seriam determinantes para a constituição da ideia que temos de nós mesmos. Na década de 60, o psicólogo americano Harry Harlow decidiu estudar a importância do apego no desenvolvimento de primatas e elaborou um experimento bastante conhecido na Psicologia. Harlow separou bebês macacos de suas mães biológicas e ofereceu a eles duas mães substitutas de mentira: uma feita exclusivamente de arame e outra revestida de um tecido macio. Os bebês foram divididos em dois grupos: no primeiro, a mãe de arame possuía uma mamadeira acoplada na altura da mama, e a mãe “felpuda”, não. No segundo grupo, a situação era inversa – a mãe revestida de tecido tinha a mamadeira, enquanto a de arame, não. O pesquisador observou que os bebês macacos passavam um tempo significativamente maior com a mãe de tecido, inclusive quando a mamadeira estava com a progenitora de arame. Nesses grupos, os bebês macacos procuravam a mãe de arame apenas para se alimentar, voltando logo para os braços da mãe de tecido. Em resumo, o estudo de Harlow demonstrou que os bebês também procuram pelas mães em busca de conforto, não apenas de alimento. Em um experimento complementar, o pesquisador teve ainda outra descoberta. Bebês que não tiveram acesso a qualquer mãe substituta costumavam paralisar-se de medo diante de situações novas, revelando absoluta inabilidade de explorar ambientes não familiares e brincar. Os estudos mostram que crianças que constituíram relações de apego seguro, em que tinham suas necessidades atendidas, mais facilmente constroem uma ideia positiva de sua relevância dentro daquela família e, mais especificamente, na relação dual mãe-bebê. Por outro lado, crianças que foram negligenciadas (em diferentes níveis) podem ter comprometida a ideia de seu valor e importância, o que contribuiria para a constituição de ideias distorcidas e negativas sobre elas mesmas.

Quem sou eu?

O autoconceito pode ser compreendido como o conjunto de crenças que o indivíduo tem sobre si mesmo. Formamos nosso autoconceito a partir do acúmulo de informações que obtivemos sobre nós mesmos por meio da nossa própria percepção e interpretação de nossas experiências, bem como da visão que o ambiente social nos proporciona. Sendo assim, a eficácia de nossas ações na realização de tarefas e a forma como somos avaliados socialmente nessa empreitada contribuem para que possamos constituir a ideia que temos de nós. A construção do autoconceito tem início muito precocemente, tão logo a criança tenha algum reconhecimento de si como indivíduo, compreendendo a própria existência e identidade. É evidente que a visão que temos de nós varia ao longo da vida, não apenas com base nos recursos cognitivos de que dispomos nas diferentes etapas do desenvolvimento, mas também em função do ambiente social em que estamos inseridos. À medida que nos engajamos em atividades profissionais e sociais mais complexas, são exigidas de nós habilidades e condições igualmente complexas. O meio social em que estamos inseridos oferece padrões de avaliação externos das nossas capacidades, expectativas e comportamentos, ao mesmo tempo em que valorizamos esses aspectos a partir daquilo que foi socialmente estabelecido em nossas relações familiares, acadêmicas e profissionais. O mito da Rainha Má revela, na figura do espelho, a importância do outro na construção do conceito que temos de nós mesmos. É das nossas relações e da forma como as interpretamos que extraímos os elementos que vão constituir o que consideramos nossas qualidades e defeitos, potências e limitações. Para nós, o outro funciona como espelho: é na forma como o outro reage a mim e às minhas atitudes que eu valido ou ajusto a imagem que faço de mim mesmo. A forma como recebo o que o espelho me mostra também tem como alicerce as minhas relações mais primitivas e o valor que foi atribuído aos recursos de que eu disponho. Se me sinto frágil, vulnerável ou pouco capaz, posso me ater mais às críticas do que aos elogios, ou achar que os elogios não condizem com a pouca capacidade de que de fato disponho, adubo infalível para o florescer da Síndrome do Impostor. E é sobre isso que falaremos no próximo capítulo desta série.

Marina von Zuben é neurocientista docente e pesquisadora do Hospital das Clínicas da USP, e Chief of Neuroscience and Learning da Bossa.etc

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