Roto
Daniel Motta

Relações sociais fazem parte de tecidos complexos que englobam signos, vínculos e rituais. Códigos - escritos e subliminares - procuram formalizar aquilo que os membros do grupo desejam perpetuar, normatizar e desdobrar ao longo do tempo.

Mas todos os tecidos, eventualmente,... esgarçam. Algumas vezes de forma lenta e gradual, com tentativas de remendos e costuras. Outras vezes de forma abrupta e violenta, com amplos buracos rompendo fibras e nós.

Todos os tecidos possuem certa elasticidade. Moldam-se. Acolhem. Naturalmente, tal elasticidade tem seus limites. Acima deles, o tecido se rompe.

A evolução do tecido social ocorre a partir de um contexto de forças externas e internas. Do ponto de vista externo, as variáveis que desafiam os grupos a renovarem constantemente seu modus operandi para se manterem aderentes aos imperativos da nova ordem social. Do ponto de vista interno, as constantes e complexas articulações políticas entre os membros dos grupos que se desenham em disputas por influência e poder. Tecidos são dinâmicos.

É válido afirmar que estamos hoje justamente em uma transição estética e ética.

Nossos princípios norteadores tradicionais em torno da Ética do Dever teceram relações, signos, vínculos e normas em torno de instituições. O arcabouço institucional construído por séculos desde o Iluminismo e a Reforma Protestante, à medida que o Capitalismo e a Democracia se expandiam como constructos predominantes, fortaleceram as instituições como eixos de referência vital diante das incertezas transcendentais e inseguranças afetivas. Igreja, Estado, Escola, Pátria e Empresa - todos aqui com suas letras maiúsculas - formaram o pentágono significante, dentro do qual se desenvolveram vidas cotidianas. Em tal contexto, hierarquia, estabilidade e escalabilidade padronizada são marcas indeléveis dos tecidos sociais em todos os aspectos: desde processo formal de educação até o matrimônio sagrado. A vida apresentava um nexo rígido, porém inteligível. Concreto, porém inquestionável.

E, então, surgiram forças de esgarçamento...

Assim podemos observar os fenômenos sociais que esticam e puxam fibras, rompem costuras, desatam nós, cruzam fios.

É lugar comum hoje afirmar que o matrimônio tradicional deixou de ser algo obrigatório e esperado pelas famílias. Até mesmo o conceito de família ampliou-se para algo mais subjetivo e fluido. Além disso, a vida provinciana em comunidade ampliou-se para uma hiperconectividade planetária, com seus filtros estéticos, teclados frenéticos, algoritmos viciantes e avatares raivosos. A vida privada está cada vez mais exposta na janela, sem lugar de fuga para aqueles que, não obstante guardem certa nostalgia por tempos vividos ou imaginativos, desejam pertencer aos tempos contemporâneos.

O tecido sintético contemporâneo está sendo construído em pixels e bytes, e não em teares mecânicos manuais ou industriais. Nesta nova ordem do dia, as clássicas instituições estão perdendo credibilidade em todas as dimensões: desde a evidente corrupção endêmica que assola o Público, até a ausência de domínio da linguagem que está em voga.

Sim. Igreja, Estado, Escola, Pátria e Empresa estão cada vez mais apegadas às Leis que insistem em regular, conter e regrar algo que não se desenvolve mais nos mesmos espaços, planos e códigos. Perderam credibilidade e respeito por suas próprias idiossincrasias.

O tecido sintético da denominada Ética do Prazer está sendo costurado no espectro intangível das conexões virtuais, das sensações efêmeras, das ideias fluidas, das possibilidades imediatas, dos conflitos contraditórios. Trata-se de uma era mais hedonista, ao mesmo tempo conectada com grandes causas abstratas, mas sugada pelo vazio introspectivo.

Agora, hierarquia, estabilidade e escalabilidade padronizada estão sendo esgarçadas pela horizontalidade descentralizada, expressão autêntica e centralidade empática. Menos regras e ordens, mais compartilhamento e velocidade. Menos previsibilidade e normas, mais espaço de fala e escuta, com criatividade desafiadora. Menos escala e processos repetidos, mais experiências únicas, diversas e inclusivas.

Os constructos sociais estão sendo reconstruídos, ressignificados e revistos.

A própria linguagem, por exemplo, está passando por transformações revolucionárias: a sintaxe enxuta que promove consoantes em detrimento das vogais, os emojis engolidores de onomatopeias, as minúsculas aglomeradas sem pontuação, as palavras substituídas por micro vídeos estranhos, as flexões de gênero cada vez mais famigeradas, os vocábulos em processo de revisão histórica dos seus percursos.

E a linguagem é apenas um aspecto estético dos tecidos sociais. Reflete, na verdade, a substância significativa das relações, dos códigos, das crenças, dos valores e das ideias.

Tecidos rotos apresentam riscos relevantes. Abrem espaços inimagináveis para aventuras messiânicas simplistas (vide, por exemplo, políticos de extrema direita e esquerda), aparentemente capazes de ordenarem o caos cognitivo e o confortarem o vazio afetivo. Também deixam de oferecer um plano compreensível para atuação social dos indivíduos, ampliando a zona de insegurança e de incerteza, até mesmo aumentando sensação de solidão ou de inaptidão - a neurose está visceralmente presente na balbúrdia, como também na perfeição.

Tecidos rotos causam estranhamento e sofrimento, mas também esperança. Uma confusão...

De um lado, tecidos esgarçados refletem o descolamento dos acontecimentos presentes. Sentem-se parte de uma outra época, onde as coisas pareciam fazer mais sentido lógico e afetivo. Acostumam-se com as fibras rompidas e com as manchas, considerando-as como simples marcas do tempo. Procuram manter o nexo subjacente ao tecido social original.

Do outro lado, as novas linhas do novo tecido social - que não é estritamente novo, posto que é costurado no contexto evolutivo do antigo que ainda se apresenta no presente - ainda não trazem toda robustez semiótica em sua forma, nem tampouco uma lógica concreta em sua função. É realmente uma obra em construção, reflexo de seus tempos atuais, ainda plástica.

Roto. Rota. Rotunda.


Daniel Augusto Motta é doutor em Economia pela USP e Senior Tupinambá Maverick da Bossa.etc

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